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ANALISE DO DISCURSO POLÍTICO IDEOLÓGICO, REFLEXÕES SOBRE A TV GLOBO NA HISTORIA POLÍTICA BRASILEIRA. Ailton de SOUZA (Ailton2006@uol.com.br) Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) Gustavo Biasoli ALVES (gbiasoli@uol.com.br) Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste)/Fundação Araucária 1 - INTRODUÇÃO: Este trabalho apresenta alguns resultados parciais de um projeto de pesquisa que é base para um Trabalho de Conclusão de Curso que está sendo desenvolvido no Curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. 3 -REFLEXÕES SOBRE A TV GLOBO NA HISTÓRIA POLÍTICA BRASILEIRA: uma revisão da literatura. O campo político brasileiro, desde os primórdios sempre buscou nos canais de comunicação 3 A este respeito ver Laclau e Mouffe (1985) um meio estreitar as relações com o público, principalmente o eleitoral. Com este intuito produzem discursos políticos e ideológicos, amplamente articulados, visando com isso atingir resultados que consolidem um estágio, período, governo ou bandeira política. A Rede Globo, poderoso meio de comunicação, marca isto através de inúmeras declarações, omissões, distorções e promoções. É contra esta postura que vários autores como Bucci (2004), Laje (1998), Kucinski (2002), Lima (2004) entre outros vão se pronunciar discutindo a posição da emissora. Nessa diretiva elaboram análises, que manifestam que a Rede Globo de Televisão: Omitiu, distorceu e promoveu, fatos, eventos e políticos caracterizando a posição da emissora. Cita-se como exemplo a omissão dos movimentos das “Diretas Já”, processo de redemocratização do país, e da promoção de seus candidatos à presidência, como o caso mais enfático de Fernando Collor de Mello e menos contundente a de Fernando Henrique Cardoso. Além do suposto prejuízo causado na eleição para o governo do Rio de Janeiro a Leonel Brizola em 1982. Os resultado da investigação desenvolvida até o presente momento, enfatizam, que não houve neutralidade político-partidário por parte da emissora, nos pleitos eleitorais acima citado, bem como aparecem indícios de desprestígio ao anseio coletivo na supressão do movimento das Diretas. Na abordagem feita por Bucci (2004) um das posturas que marca isto foi á total omissão dos movimentos das (Diretas Já) em 1984, considerado um dos movimentos mais importantes da historia política brasileira. O autor cita que a conduta do Jornal Nacional durante a cobertura da campanha por eleições diretas para presidente da República foi tendenciosa. Enfocando que na sua fala que: “no dia 25 de janeiro de 1984 o Jornal Nacional tapeou o telespectador”. (BUCCI, 2004 p.191) Na data citada realizou-se na Praça da Sé em São Paulo um grande comício, se não o maior comício do movimento, exigindo a volta das eleições diretas para presidente da República. Embora na data seguinte os jornais impressos dessem expressão ao movimento enfatizando a enorme presença da população. O Jornal Nacional no dia 25 adotou postura contrária enfatizando o movimento de maneira, a ser apenas, uma solenidade do 430º aniversario de São Paulo, que coincidira com o comício das Diretas. O papel da Rede Globo no episódio procurou projetar o movimento de maneira inferior à magnitude que se constatava, diminuindo ou silenciando a importância deste, pois dissociava a sua realização de um ato político de oposição ao regime vigente e associava-o a uma efemeridade4. A polêmica da “tapeação”, e conseqüente da articulação feita em torno do episódio da cobertura das Diretas foi alvo do rechaço por Ali Kamel, então, diretor executivo do jornalismo da Rede Globo, em 2003, enfatizando o contrário, “que não Tapeou” e de que o Jornal Nacional noticiou adequadamente, mantendo o significado e expressão, que o mesmo teve. Para Bucci a posição do Jornal Nacional bem como da Rede Globo era de boicotar totalmente o movimento desde de 1983, mas com a consistência e força do movimento, acabou cedendo à pressão popular e dando mais ênfase ao movimento. O movimento retratado pelo Jornal Nacional conforme a edição especial comemorativa de 35 anos (memória Globo, 2004), dá outra conotação, ao episódio. Nele a Globo destaca que acompanhou todo o processo, deste a tramitação da emenda de Dante de Oliveira no Congresso Nacional. Noticiando os debates, encontros e entrevistas, inclusive uma com o presidente Figueiredo feita pelo repórter Álvaro Pereira em 16 de janeiro de 1983, dizendo que era favorável as Diretas. A Globo reitera que o fato noticiado naquela noite teve grande repercussão. Sobre o ano de 1984, a Globo confirma, que realmente nos comícios de 12 janeiro, em Curitiba que reuniu 50.000 pessoas e no seguinte de Salvador, Campinas e São Paulo, com os respectivos 15, 10 e 12 mil pessoas acompanhou apenas pelos tele-jornais locais. Também considera as críticas que recebe, como posições de um momento, polêmico da TV Globo onde figurava uma idéia diferente sobre a como a emissora prostou-se perante o movimento. Para a Globo o motivo da repercussão foi o da escala do Jornal Nacional da data, que não referenciou o comício, mas sim o aniversário da cidade. Este evento foi sentido na chamada de entrada do jornal, 4 O que para Bucci caracterizou a falta de ética do Jornalismo Global, fato que inspirou o livro de sua autoria intitulado “Sobre a Ética da Imprensa” (São Paulo Companhia das Letras, 2000.) então apresentado por Marcos Hummel, mas que foi reiterado no decorrer da matéria, pelo repórter Ernesto Paglia, que enfatizava a conotação e objetivo político da manifestação. A Globo também se defende do ocorrido manifestando que era pressionada pelos dois lados. De um lado a população pressionava pelo maior destaque da manifestação – chegando até a depredar automóveis da emissora - e de outro os militares forçando para que não se cobrisse o evento, ameaçando retirar a concessão da emissora. Mas conforme crescia o movimento era inevitável a cobertura da movimentação. Tanto que em abril de 1985 o movimento chegava à casa do milhão e a Globo conseqüentemente aumentava sua cobertura, sendo que no dia 16 ocupava 16 minutos dos 21 minutos do Jornal da Globo. E no dia 10 de antes do Jornal Nacional ir ao ar um helicóptero do Exército sobrevoava de forma intimidadora a sede da emissora, segundo relato de Roberto Irineu Marinho as pressões aumentaram, chegando ao ponto, de ele ter na manhã do dia 10, a visita de um general do Exército pedindo se a Globo transmitiria a totalidade do Comício. Pressionado, o mesmo salientara que somente transmitiria os flashes do evento. Contudo, segundo o relato de Roberto Irineu Marinho, o Exército manteve sua posição e durante o horário da transmissão um helicóptero com soldados que apontavam uma metralhadora para os estúdios durante a manifestação continuou seu sobrevôo. Para a Rede Globo de Televisão, a censura impediu que se desenvolvesse um trabalho de maior de cobertura, o que de certa forma, foi driblado pela equipe, que mesmo impedida de noticiar o evento, vestiu-se de verde amarelo e manteve a seriedade diante das câmeras, como um gesto informal de apoio à manifestação. Noutro episódio, a Globo foi acusada de informar falsamente a população, promovendo um boicote ao então candidato ao governo do Rio de Janeiro 1982, Leonel Brizola, figura política de grande expressão antes do golpe 64, que fora anistiado em 1979. Neste evento segundo Lima (2004, p.148) a Rede Globo, tentou fraudar as eleições e impedir a vitória de Brizola. Seu esquema consistia era de criar uma ilusão da derrota de um político anistiado. Neste processo o sistema desenvolvido para contagem de votos o “Proconsult” programado pelo próprio Exército, subtraia votos de Brizola e adicionava a Moreira Franco candidato do regime e da emissora. Esta, no entanto, divulgaria apenas os resultados da apuração oficial, nisto seu estágio de liderança de audiência seria vital para o embuste, pois emprestaria sua credibilidade para os falsos resultados que iriam aos poucos sendo fabricados. Em resposta ao ocorrido a Rede Globo, manifesta-se através na obra “Jornal Nacional: A noticia fazendo historia5”, enfocando que seus números oficiais eram diferentes do que outros órgãos de comunicação, porque compensava a distorção dos números oficiais, que davam aparentemente vantagem á Moreira Franco, fazendo projeções, levando em conta a porcentagem de urnas ainda não apuradas. O Jornal do Brasil ao contrário, desde os primeiros dias já apontava a vitória de Brizola em seus noticiários. Quanto às eleições presidenciais, a Globo teve um papel de destaque na construção de um perfil de candidato ideal. Neste episódio a análise dos teóricos da mídia citados anteriormente, é de que houve uma construção do cenário da representação política, enfatizado pelas telenovelas globais: Vale Tudo, que foi ao ar em 16/05/88, O Salvador da Pátria, em 09/01/89 e a novela Que Rei Sou Eu de 12/02/89. Este processo se condiz com a provável criação por parte dá Globo, de uma seqüência, lógica, cronológica, de uma representação política que se contextualizava com a realidade do país. Nesse processo surge a idéia da subliminariedade ou da realidade ficcional da televisão. Na cronologia das telenovelas, Vale Tudo, por exemplo, abordava, e tinha uma conotação política onde conforme os apontamentos de Lima (2004), prevalecia á ética da sobrevivência, num ambiente de ampla corrupção, o que pode ser entendido como a forma que a emissora buscou caracterizar, senão a totalidade da situação vivida pelo país, ao menos o comportamento das classes mais abastadas e é de se destacar também que o título da novela está associado a duas coisas: ou uma ausência total de regras, de moral, ou a uma luta extremamente desleal e sangrenta6. 5 Editora Zahar (2004) Rio de janeiro. 6 Vale aqui destacar, conforme faz PINTO (1994) que inflação e corrupção constituíram-se em pontos concentradores O Salvador da Pátria, no entanto dava uma conotação satírica ao político despreparado, sem ideologia, sem historia ou partido, representado na figura do personagem Sassá Mutema que teve ampla aceitação popular e que constrói a idéia que pessoas comuns não têm condições de exercer o poder de forma correta, que se transformam após chegada ao poder, ou que são ingênuas, facilmente manipuláveis e enganáveis. Por outro lado, em Que Rei Sou Eu, onde o mundo é somente de corruptos, com exceção o executivo, estando á salvação nas mãos de um príncipe, bonito e jovem que conquista o poder. Fatos que indiretamente e subliminarmente beneficiavam o candidato Fernando Collor no pleito, pois o aspecto da juventude e do vigor era essencial visto que e a Nação ressentia-se da frustração da não posse de Tancredo Neves devido à sua doença e falecimento e que José Sarney gozava de pouquíssima popularidade, sendo seu governo associado à inflação e a constantes denúncias de malversação do dinheiro público. Além disto, conforme Moritz (1996 e 1998) destaca, Collor de Mello buscou construir-se discursivamente como jovem esportista, viril, capaz, moralizador e representante da classe trabalhadora (não das elites), numa clara estratégia de rompimento com o governo anterior (também tencionada por Lula, seu oponente mais direto). Há, portanto uma associação entre o retrato do país tecido pela emissora e o perfil que o candidato vencedor buscou para si7, o que mostra que a emissora usou de fatos políticos externos à trama da novela em si para construir sua posição e para passar uma posição sobre estes mesmos fatos. Na afirmação de Laje (1998, p.389) “o próprio presidente da Rede Globo admitiu publicamente que teria inventado o candidato”. Especialistas indicam que no período pré-eleitoral o mesmo tenha em duas diretrizes, facilitado a sua ascensão. Numa havia uma cobertura desproporcionalmente favorável a Collor e na outra uma divulgação ou não divulgação de fatos políticos ou da campanha, conforme fosse conveniente a seu candidato. Entretanto, a emissora também contribuiu para uma desconstrução da imagem do presidente. Neste caso a minissérie Anos Rebeldes, que foi ao ar em 1992, ano do impeachment de Fernando Collor é um caso paradigmático, o que para Bucci (2004), se constituiu numa campanha subliminar próimpeachment. Nela a emissora traz à tona todos os movimentos populares e políticos que fizeram oposição ao Regime Militar8, mais do que isso retoma o cotidiano dos fatos, mostra o desespero das famílias dos desaparecidos, dando visibilidade à posição política tencionada por estes movimentos (o que não havia aparecido nitidamente nas novelas do período da campanha), mostrando que estas pessoas eram idealistas, corajosas, e fundamentalmente, que a juventude podia se mobilizar podia ser agente político, o que de alguma forma contribuiu para que as mobilizações populares que ocorreram no processo de impeachment ocorressem e tivessem maior vulto9. Porém, nem todas as telenovelas foram mecanismos de ação antidemocrática, pois a também aquelas que são capazes de influenciar os debates políticos. A novela Rei do Gado , exibida entre junho de 1996 a fevereiro de 1997, tratou mais da luta da terra do que todo o jornalismo. Estreando coincidentemente poucas semanas após o massacre dos trabalhadores sem terra no Pará, onde 19 pessoas foram mortas. A teledramaturgia Global neste episodio, impediu de certa forma que a questão agrária caísse no ostracismo.(BUCCI, idem, p.226) Na eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, a Globo manteve uma posição mais cautelosa não utilizando todas suas ferramentas de ação política. Porém, dado ao fato, de no período o país estar vivendo uma longa oscilação inflacionária, ela priorizou e enfatizou constantemente uma das bandeiras do candidato o “Plano Real”. Neste evento a própria Globo assinalou por seu presidente que “queria o que era melhor para o Brasil”, mas a intriga que se desenvolveu foi o de uma conversa de toda a luta política do período, substituindo a oposição ao Regime Militar, como um “inimigo” comum e único contra o qual o povo (sujeito a ser construído) se oporia. 7 Conforme está presente em Alves (2004), ao longo de seu governo, Collor de Mello continuou com esta mesma estratégia discursiva, só que agora buscando não se legitimar como candidato, mas como governante. 8 Vale aqui destacar que, conforme está em Alves (2004), Collor de Mello também buscou construir a si como representante destas pessoas, de sua geração. 9 Outro ponto a ser destacado é que, conforme está presente em Pinto (1994) e Alves (2004) o impeachment é um momento de ruptura por parte da maioria da população com a posição discursiva tencionada por Collor de Mello. informal de Carlos Monforte, com o então Ministro da Fazenda Rubens Ricupero, substituto de FHC, nos estúdios da tevê Globo. O mesmo, que esperava para gravar entrevista que estava previsto ir ao ar no Jornal da Globo, teve sua conversa acidentalmente captada por algumas antenas parabólicas domésticas que estavam na mesma freqüência. Na conversa Recupero admitia o uso eleitoral dos indicadores positivos do governo em favor do candidato do PSDB. Além disso, manifestava “não ter escrúpulos de na Rede Globo esconder o que era ruim e divulgar o que era bom”, além de colocá-lo como um apoio indireto a FHC. A Rede Globo divulgou nota no dia seguinte alegando que “informaria corretamente os telespectadores e sempre apoiaria medidas que visasse acabar com a inflação”. Embora o ocorrido culminasse com o pedido de desculpas do Ministro e seu pedido de demissão, o mesmo não prejudicou o candidato que venceu a eleições em primeiro turno. Neste caso mesmo que a intenção não fosse a de promover o candidato, a Globo acabou fazendo o Marketing político do candidato. Assim podemos constatar que a televisão mantém ainda grande influência como um instrumento de ação política. Sua posição diante a um evento político, ou acontecimento é um fator que pode ser determinante na opinião pública. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O campo político e ideológico encontra nos mecanismos de comunicação um canal influente, de propagação de mensagens. É por estes canais e mais precisamente pela televisão que a população consome discursos, imagens e grande variedade de dados sobre um processo político, o que ajuda a conformar ou legitimar determinadas visões. Nos Estados Unidos, onde existe uma outra realidade política, há eventos similares na história. O mais conhecido é a da vitória de John F Kennedy um azarão do pleito eleitoral de 1960, que utilizando todos os recursos de projeção televisiva além de um discurso muito bem preparado e articulado, vence eleições do então favorito Richard Nixon. Assim, embora os mecanismos de (AD) televisivo sejam de certa forma mais trabalhosos, eles permitem captar de uma forma aprofundada, elementos chaves dos processos políticos. E deste modo continua sendo uma área fecunda para estudiosos do campo da linguagem. |





